Resumo:
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A mangarataia é o gengibre nativo da Amazônia, tradicionalmente utilizado como alimento e planta funcional.
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Rica em compostos fenólicos, com destaque para gingeróis e shogaóis, associados à ação antioxidante e anti-inflamatória.
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Apresenta elevado teor de fibras, proteínas e compostos bioativos, favorecendo saúde metabólica e intestinal.
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Estudos mostram alta capacidade antioxidante, especialmente em cultivos orgânicos.
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Atua no suporte à imunidade, auxiliando na resposta do organismo ao estresse oxidativo.
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Favorece a circulação e a termogênese, contribuindo para energia, foco e desempenho físico.
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Tradicionalmente utilizada por comunidades amazônicas em contextos de inflamação, dores e fortalecimento do corpo.
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Ingrediente estratégico em fórmulas da Terramazonia como Libbido, Immunne Shot e Thermo Pre-Workout, onde atua de forma sinérgica.
Introdução:
A mangarataia, conhecida como o gengibre nativo da Amazônia, é um ingrediente profundamente enraizado no uso tradicional das comunidades amazônicas e cada vez mais valorizado pela ciência nutricional. Rica em compostos bioativos com ação antioxidante e anti-inflamatória, ela atua no suporte à imunidade, na melhora da circulação e no aumento da disposição física e mental. Por seu perfil funcional versátil, a mangarataia é um ingrediente-chave em fórmulas da Terramazonia como Libbido, Immunne Shot e Thermo Pre-Workout, onde conecta saber tradicional, biodiversidade amazônica e nutrição funcional moderna.
Estudos científicos:
Mangarataia (Gengibre)
O trabalho “Análise metabolômica e determinação da atividade antioxidante de gengibre” foi desenvolvido por Cíntia Tarabal Oliveira e colaboradores, vinculados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e PUC Minas, sendo publicado no livro Ciências Agrárias: o avanço da ciência no Brasil – Volume 1, em 2020.
O estudo teve como objetivo avaliar a composição química, o perfil metabolômico e a atividade antioxidante de rizomas de gengibre (Zingiber officinale), comparando amostras provenientes de cultivo convencional e orgânico. Para isso, foram empregadas técnicas clássicas de análise físico-química, métodos consagrados de avaliação antioxidante e uma abordagem moderna de espectrometria de massas com ionização por paper spray (PS-MS), visando identificar compostos bioativos e verificar a influência do tipo de cultivo na qualidade nutricional e funcional do gengibre.
Introdução
O gengibre (Zingiber officinale) é uma planta de origem asiática amplamente cultivada e utilizada mundialmente como condimento, ingrediente alimentar e matéria-prima para produtos farmacêuticos e cosméticos. Seus efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e hepatoprotetores estão associados principalmente à presença de compostos fenólicos, com destaque para os gingeróis, especialmente o 6-gingerol, responsável pela pungência característica do rizoma.
Nos últimos anos, o interesse por alimentos funcionais e por produtos oriundos da agricultura orgânica aumentou significativamente, tornando relevante a investigação de como o tipo de cultivo influencia a composição química e a atividade biológica dos alimentos. Nesse contexto, técnicas analíticas rápidas e sensíveis, como a espectrometria de massas com ionização ambiente por paper spray, surgem como alternativas eficientes aos métodos cromatográficos tradicionais.
Objetivos
O estudo teve como objetivos principais:
· determinar a capacidade antioxidante total do gengibre;
· avaliar o perfil químico metabolômico dos rizomas por PS-MS;
· comparar gengibres de cultivo convencional e orgânico quanto à composição química, atividade antioxidante e teor de 6-gingerol.
Metodologia
Foram analisadas amostras de gengibre provenientes da região Sudeste do Brasil, sendo:
· duas amostras de cultivo convencional (São Paulo e Espírito Santo);
· duas amostras de cultivo orgânico (Minas Gerais).
As amostras foram higienizadas, trituradas e armazenadas sob congelamento. As análises realizadas incluíram:
· Composição físico-química (umidade, lipídios, proteínas, cinzas e fibras), segundo métodos da AOAC;
· Determinação de compostos fenólicos totais pelo método de Folin–Ciocalteu;
· Avaliação da atividade antioxidante pelos métodos FRAP, ABTS e DPPH;
· Análise metabolômica por PS-MS nos modos de ionização positivo e negativo;
· Quantificação do 6-gingerol por cromatografia líquida de ultra eficiência (UPLC-DAD), após otimização do método de extração;
· Análise estatística por ANOVA e teste de Tukey (5% de significância).
Resultados e discussão
Composição físico-química
As amostras de gengibre orgânico apresentaram:
· menor teor de umidade;
· maiores teores de proteínas e fibras totais, especialmente fibra insolúvel.
O teor de fibras alimentares foi elevado em todas as amostras, variando de aproximadamente 34% a 56%, evidenciando o potencial do gengibre como alimento funcional.
Compostos fenólicos e atividade antioxidante
O teor médio de compostos fenólicos foi de cerca de 15 mg de equivalentes de ácido gálico por 100 g, sem diferenças significativas entre as amostras.
Entretanto, os métodos FRAP e ABTS indicaram que:
· o gengibre orgânico apresentou maior atividade antioxidante em comparação ao convencional;
· os resultados sugerem maior eficiência redutora e maior capacidade de neutralização de radicais livres nas amostras orgânicas.
Conteúdo de 6-gingerol
O teor de 6-gingerol variou significativamente entre os tipos de cultivo:
· gengibre convencional: aproximadamente 27 a 45 mg/100 g;
· gengibre orgânico: aproximadamente 64 a 74 mg/100 g.
Esses resultados demonstram que o cultivo orgânico favorece a maior concentração de compostos bioativos, especialmente aqueles associados à atividade anti-inflamatória.
Perfil metabolômico por PS-MS
A espectrometria de massas por paper spray permitiu a identificação de:
· 19 compostos no modo positivo;
· 28 compostos no modo negativo,
pertencentes a diversas classes químicas, como:
· açúcares;
· ácidos graxos;
· fenilpropanóides;
· flavonoides;
· carotenóides.
Diferenças qualitativas foram observadas entre os tipos de gengibre, com alguns compostos detectados exclusivamente em amostras orgânicas, evidenciando o potencial da técnica para diferenciação e controle de qualidade.
Conclusão
O estudo demonstra que o gengibre orgânico apresenta vantagens nutricionais e funcionais em relação ao gengibre convencional, com maiores teores de 6-gingerol, fibras e proteínas, além de atividade antioxidante superior.
A técnica de espectrometria de massas com ionização por paper spray mostrou-se uma ferramenta rápida, eficiente, de baixo custo e sem geração de resíduos, adequada para a caracterização química de matrizes alimentares complexas.
Os resultados reforçam a importância do cultivo orgânico e do uso de técnicas analíticas inovadoras para a avaliação da qualidade e do potencial funcional de alimentos vegetais.
Referência:
OLIVEIRA, Cíntia Tarabal et al. Análise metabolômica e determinação da atividade antioxidante de gengibre. In: Ciências agrárias: o avanço da ciência no Brasil. Belo Horizonte: Editora Científica Digital, 2020. v. 1, p. 262–277. DOI: 10.37885/210504808
O artigo “Avaliação agronômica e caracterização química de acessos de gengibre (Zingiber officinale) nas condições de Manaus, AM” foi publicado em 2012 na revista Horticultura Brasileira (Suplemento – CD-ROM) e teve como autores Francisco Célio Maia Chaves, Glyn Mara Figueira, Yves Marie Pral, Esmeraldino Ribeiro Craveiro e Ana Paula Artimonte Vaz, pesquisadores vinculados à Embrapa Amazônia Ocidental, CPQBA/UNICAMP e Embrapa Produtos e Mercado.
O estudo teve como objetivo avaliar o desempenho agronômico e a composição química do óleo essencial de três acessos de gengibre (Local, Campinas e Espírito Santo) cultivados nas condições edafoclimáticas de Manaus, Amazonas. O trabalho integra aspectos de produtividade agrícola, recurso genético vegetal e potencial industrial, sendo relevante tanto para a agricultura familiar quanto para a cadeia de óleos essenciais.
Introdução
O gengibre (Zingiber officinale Roscoe) é uma planta herbácea perene da família Zingiberaceae, amplamente utilizada como condimento, matéria-prima industrial e planta medicinal. Seu rizoma apresenta propriedades excitantes, estomacais e carminativas, além de comprovadas atividades anti-inflamatória, antiemética, antináusea, hipoglicemiante e antibacteriana.
No Brasil, o gengibre é cultivado desde a região amazônica até o Sul do país, destacando-se como uma cultura de grande importância econômica, especialmente voltada à exportação in natura. Entre os fatores que influenciam a produtividade e a qualidade do gengibre estão o material genético, as condições ambientais e o manejo agronômico, o que justifica a avaliação comparativa de diferentes acessos.
Objetivo
O objetivo do estudo foi avaliar agronomicamente e caracterizar quimicamente três acessos de gengibre cultivados em Manaus, AM, considerando:
· produtividade de rizomas;
· altura das plantas;
· composição do óleo essencial dos rizomas.
Material e métodos
O experimento foi conduzido na Embrapa Amazônia Ocidental, no setor de plantas medicinais e hortaliças.
· Delineamento experimental: blocos ao acaso.
· Tratamentos: três acessos de gengibre (Local, Campinas e Espírito Santo).
· Repetições: sete blocos, com cinco plantas por parcela útil.
· Plantio: dezembro de 2010, no espaçamento de 1,0 × 0,5 m.
· Colheita: agosto de 2011, quando as plantas apresentavam folhas amareladas e acamadas (estádio recomendado).
Após a colheita:
· os rizomas foram secos à sombra por uma semana;
· realizou-se a pesagem para cálculo da produção por planta;
· o óleo essencial foi extraído por hidrodestilação em aparelho de Clevenger;
· a caracterização química foi feita por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS).
Foram monitorados sete constituintes químicos principais: canfeno, 1,8-cineol, neral, geranial, curcumeno, α-zingibereno e β-bisaboleno.
Resultados e discussão
Desempenho agronômico
· O acesso Espírito Santo apresentou a maior produção de rizomas, com média de 1.071,7 g/planta, diferindo estatisticamente dos demais.
· Os acessos Local e Campinas apresentaram produções significativamente menores (≈ 500 g/planta), sem diferença entre si.
· Não houve diferença estatística significativa quanto à altura das plantas entre os acessos.
Composição química do óleo essencial
· O principal constituinte do óleo essencial foi o geranial, seguido do neral, em todos os acessos.
· O acesso Campinas apresentou o maior teor total de constituintes químicos (74,09%), com destaque para:
o geranial (26,09%);
o neral (17,13%).
· O acesso Espírito Santo, apesar da maior produtividade de biomassa, apresentou menor teor relativo de óleo essencial.
· Compostos como 1,8-cineol, canfeno e α-zingibereno também foram detectados em quantidades relevantes.
Esses resultados indicam uma relação inversa entre produção de biomassa e concentração de metabólitos secundários, sugerindo diferentes potenciais de uso:
· acesso Espírito Santo → foco em produtividade agrícola;
· acesso Campinas → foco em extração de compostos de alto valor industrial.
Conclusão
O estudo conclui que:
· o acesso Espírito Santo é o mais indicado para produção de rizomas, devido à maior produtividade;
· o acesso Campinas apresenta maior potencial para exploração industrial do óleo essencial, em função do elevado teor de geranial e neral;
· a avaliação conjunta de parâmetros agronômicos e químicos é essencial para orientar estratégias de cultivo, melhoramento genético e uso industrial do gengibre nas condições amazônicas.
Referência
CHAVES, Francisco Célio Maia et al. Avaliação agronômica e caracterização química de acessos de gengibre (Zingiber officinale) nas condições de Manaus, AM. Horticultura Brasileira, Brasília, v. 30, n. 2, supl., p. S5805–S5809, 2012.
O artigo “Survey of Medicinal Plants Used by Communities in the Urban Area in the Municipality of Moju/PA” foi publicado em 2025 na Revista Aracê e tem como autoras Gleice da Conceição Barbosa, Cleonice da Silva Valadares e Edna Antônia da Silva Brito, vinculadas ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA).
O estudo consiste em um levantamento etnobotânico realizado em comunidades urbanas do município de Moju, Pará, com o objetivo de identificar, registrar e analisar o uso de plantas medicinais, suas formas de preparo, indicações terapêuticas e o perfil socioeconômico dos usuários. O trabalho destaca a relevância do conhecimento tradicional amazônico, mesmo em contextos urbanos, e sua importância para a saúde, a cultura local e a preservação da biodiversidade.
Introdução
As plantas medicinais desempenham papel central nas práticas de cuidado à saúde de diversas comunidades brasileiras, especialmente na Amazônia, onde a biodiversidade vegetal é extensa e o conhecimento tradicional permanece vivo. No município de Moju/PA, o uso de plantas medicinais é amplamente difundido, inclusive em áreas urbanas, funcionando tanto como alternativa terapêutica quanto como forma de preservação cultural frente à medicalização e à industrialização da saúde.
A etnobotânica surge como ciência fundamental para compreender a relação entre as comunidades humanas e o uso terapêutico das plantas, integrando saberes populares e conhecimento científico. Nesse contexto, o estudo buscou valorizar o conhecimento tradicional urbano, frequentemente negligenciado em pesquisas voltadas apenas a comunidades rurais ou tradicionais.
Objetivos
O estudo teve como objetivos:
· realizar o levantamento das principais espécies de plantas medicinais utilizadas por comunidades urbanas de Moju/PA;
· identificar formas de uso, partes utilizadas e indicações terapêuticas;
· traçar o perfil socioeconômico e cultural dos usuários;
· compreender os processos de aquisição e transmissão do conhecimento tradicional.
Metodologia
A pesquisa foi conduzida entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, em três bairros urbanos de Moju (Nazaré, Novo Horizonte e Paraíso), envolvendo 202 famílias.
Os principais aspectos metodológicos incluem:
· abordagem qualitativa, descritiva e exploratória;
· aplicação de entrevistas semiestruturadas;
· observação participante;
· amostragem pelo método “bola de neve”, priorizando pessoas reconhecidas como detentoras de conhecimento sobre plantas medicinais;
· levantamento bibliográfico para identificação científica das espécies;
· análise dos dados por estatística descritiva, com tabelas e gráficos.
Todos os procedimentos seguiram princípios éticos, com consentimento informado e preservação da identidade dos participantes.
Resultados e discussão
Perfil socioeconômico
· Os entrevistados tinham entre 18 e 87 anos, com predominância de adultos e idosos.
· A maioria apresentava baixo nível de escolaridade (ensino fundamental) e renda de até um salário mínimo.
· Esses fatores reforçam o uso de plantas medicinais como alternativa acessível e economicamente viável para o cuidado em saúde.
Diversidade de espécies
Foram registradas 149 espécies de plantas medicinais, pertencentes a 60 famílias botânicas.
As famílias mais representativas foram Lamiaceae, Fabaceae e Rutaceae, padrão semelhante a outros estudos etnobotânicos no Brasil.
O levantamento incluiu tantas espécies amplamente conhecidas (como Aloe vera, Cymbopogon citratus e Mentha sp.) quanto espécies regionais menos difundidas, evidenciando a riqueza do conhecimento local.
Formas de uso e partes utilizadas
· Foram identificadas 63 finalidades terapêuticas, com destaque para:
o uso como tranquilizante;
o tratamento de dores;
o tratamento de inflamações.
· A infusão em forma de chá foi a principal forma de uso (mais de 800 citações).
· As folhas foram a parte mais utilizada das plantas, seguidas por cascas e sementes.
Aspectos culturais
· O conhecimento sobre plantas medicinais é transmitido principalmente de forma intergeracional, reforçado pela convivência familiar e pelo cultivo em quintais urbanos.
· Esses espaços funcionam como locais de resistência cultural, preservando práticas tradicionais mesmo em ambientes urbanizados.
Conclusão
O estudo evidencia que o uso de plantas medicinais permanece fortemente enraizado nas comunidades urbanas de Moju/PA, refletindo não apenas uma alternativa terapêutica, mas também um importante patrimônio cultural e ambiental.
A identificação de elevado número de espécies e de práticas consolidadas demonstra a relevância do conhecimento tradicional para a promoção da saúde e para a conservação da biodiversidade amazônica. Os autores destacam a necessidade de novas pesquisas fitoquímicas e farmacológicas que validem a eficácia e a segurança das espécies identificadas, bem como a importância de políticas públicas que integrem o saber popular aos sistemas formais de saúde.
Referência
BARBOSA, Gleice da Conceição; VALADARES, Cleonice da Silva; BRITO, Edna Antônia da Silva. Survey of medicinal plants used by communities in the urban area in the municipality of Moju/PA. Revista Aracê, São José dos Pinhais, v. 7, n. 2, p. 9080–9098, 2025. DOI: 10.56238/arev7n2-262.
A dissertação intitulada “Caracterização do cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares em duas comunidades amazônicas” foi desenvolvida por Jolemia Cristina Nascimento das Chagas, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Agronomia Tropical da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), sendo defendida em 2011 sob orientação da Profa. Dra. Therezinha de Jesus Pinto Fraxe.
O estudo teve como foco compreender, descrever e analisar os sistemas de cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares em duas comunidades ribeirinhas da Amazônia Central — Santa Luzia do Baixio (Iranduba/AM) e São Francisco (Careiro da Várzea/AM). A pesquisa aborda aspectos agronômicos, socioeconômicos, culturais e ambientais, destacando o papel da agricultura familiar, dos quintais agroflorestais e do conhecimento tradicional na conservação da biodiversidade e na geração de renda local.
Introdução
A Região Amazônica apresenta elevada sociobiodiversidade, resultado da interação histórica entre populações tradicionais e os ecossistemas de várzea e terra firme. Nessas áreas, a agricultura familiar constitui uma das principais formas de uso do solo, especialmente nas várzeas, onde a fertilidade natural favorece sistemas produtivos diversificados.
Entre esses sistemas, destacam-se os quintais agroflorestais, nos quais são cultivadas plantas alimentícias, medicinais, aromáticas e condimentares. Esses espaços exercem papel fundamental na subsistência, geração de renda, segurança alimentar, preservação cultural e conservação in situ da agrobiodiversidade. O cultivo dessas plantas está profundamente associado ao conhecimento tradicional, transmitido oralmente entre gerações e adaptado à sazonalidade do regime de cheias e vazantes dos rios amazônicos.
Objetivos
Objetivo geral
Caracterizar o cultivo e a preservação de plantas medicinais, aromáticas e condimentares em duas comunidades amazônicas.
Objetivos específicos
· Descrever o conhecimento tradicional relacionado ao cultivo dessas plantas;
· Analisar a divisão social do trabalho familiar;
· Identificar fatores limitantes e de persistência dos sistemas produtivos;
· Avaliar a importância socioeconômica e cultural dessas espécies para as comunidades estudadas.
Metodologia
A pesquisa teve caráter qualitativo, descritivo e exploratório, sendo realizada nas comunidades de São Francisco (Careiro da Várzea) e Santa Luzia do Baixio (Iranduba).
Foram utilizados múltiplos instrumentos de coleta de dados, incluindo:
· reuniões participativas;
· formulários socioeconômicos;
· entrevistas estruturadas e semiestruturadas;
· observação participante;
· relatos orais (história oral);
· mapas mentais;
· georreferenciamento das áreas de estudo.
A análise dos dados envolveu organização, tabulação, sistematização em quadros e tabelas, além de interpretação qualitativa das informações coletadas em campo.
Resultados e discussão
Perfil sociocultural dos agricultores
As comunidades são compostas majoritariamente por agricultores familiares ribeirinhos, com forte participação da mão de obra feminina no cultivo e manejo dos quintais. O nível de escolaridade é predominantemente básico, e a renda familiar está fortemente vinculada à produção agrícola.
Sistemas de cultivo
Os cultivos de plantas medicinais, aromáticas e condimentares ocorrem principalmente em quintais agroflorestais, caracterizados por:
· cultivo em miscelânea, intercalado com hortaliças, frutíferas e outras espécies;
· baixo uso de insumos externos;
· manejo adaptado à dinâmica das cheias, incluindo canteiros suspensos e jirais no período de inundação.
Esses sistemas permitem produção contínua ao longo do ano, mesmo sob condições ambientais adversas.
Conhecimento tradicional e transmissão de saberes
O conhecimento sobre cultivo, uso medicinal, culinário e comercial das plantas é transmitido intergeracionalmente, sobretudo no convívio familiar. As práticas agrícolas estão profundamente ligadas à cultura local, sendo fundamentais para a manutenção da identidade dos caboclos ribeirinhos.
Importância econômica e social
As plantas medicinais, aromáticas e condimentares representam:
· fonte complementar de renda familiar;
· base da alimentação local;
· alternativa terapêutica frente à dificuldade de acesso a serviços de saúde;
· estratégia de conservação da biodiversidade agrícola.
Fatores limitantes
O principal fator limitante identificado foi a sazonalidade do rio, que condiciona o uso do solo e impõe adaptações constantes no sistema produtivo. Outros desafios incluem:
· ausência de assistência técnica contínua;
· dificuldades de acesso a políticas públicas;
· limitações na comercialização.
Conclusão
A dissertação demonstra que o cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares nas comunidades estudadas constitui um sistema produtivo sustentável, resiliente e culturalmente enraizado, baseado na agricultura familiar e no conhecimento tradicional.
Os quintais agroflorestais configuram-se como espaços estratégicos de conservação da agrobiodiversidade, geração de renda, segurança alimentar e reprodução social dos ribeirinhos amazônicos. O estudo reforça a necessidade de políticas públicas específicas, apoio técnico e valorização dos saberes tradicionais como elementos centrais para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Referências
CHAGAS, Jolemia Cristina Nascimento das. Caracterização do cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares em duas comunidades amazônicas. 2011. Dissertação (Mestrado em Agronomia Tropical) – Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2011.
O artigo “Caracterização morfoagronômica e diversidade genética de gengibre usando o algoritmo de Gower” foi publicado em 2022 na revista Conjecturas e teve como autores Uéliton Alves de Oliveira, Elisa dos Santos Cardoso, Alex Souza Rodrigues, Eliane Cristina Moreno de Pedri, Auana Vicente Tiago e Ana Aparecida Bandini Rossi, vinculados à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e à Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT).
O estudo teve como objetivo avaliar a variabilidade genética e caracterizar morfoagronomicamente indivíduos de gengibre (Zingiber officinale Roscoe), utilizando descritores quantitativos e qualitativos e aplicando o algoritmo de Gower, que permite a análise conjunta de variáveis de naturezas distintas. O trabalho busca gerar subsídios para programas de melhoramento genético, conservação de germoplasma e estratégias de cultivo da espécie.
Introdução
O gengibre (Zingiber officinale Roscoe) é uma monocotiledônea da família Zingiberaceae, amplamente utilizada para fins culinários, medicinais e industriais, em função de suas propriedades aromáticas, antioxidantes, antibacterianas e anti-inflamatórias. O Brasil figura entre os principais exportadores da cultura, com destaque para as regiões Sul e Sudeste, embora o cultivo também ocorra em quintais urbanos e rurais.
Apesar de sua importância econômica, ainda há carência de informações sobre a variabilidade genética do gengibre cultivado no Brasil, o que limita ações de melhoramento genético e conservação. Nesse contexto, a caracterização morfoagronômica surge como ferramenta fundamental para identificar a diversidade existente, permitindo a seleção de genótipos superiores e a formação de coleções de germoplasma.
Objetivo
O estudo teve como objetivo caracterizar e avaliar a divergência genética entre indivíduos de gengibre, por meio da análise de 21 descritores morfoagronômicos, sendo:
· 7 descritores quantitativos;
· 14 descritores qualitativos multicategóricos,
· utilizando métodos multivariados, com destaque para o algoritmo de Gower.
Material e métodos
O experimento foi conduzido em casa de vegetação na UNEMAT – campus de Alta Floresta.
1. Material vegetal:
· Foram avaliados 32 genótipos de gengibre, provenientes dos municípios de Alta Floresta, Apiacás, Nova Mutum, Peixoto de Azevedo (MT) e Uberaba (MG).
2. Condução do experimento:
· Os rizomas foram plantados em vasos de 5 L, com adubação NPK 04-14-8, irrigação por aspersão e manejo manual. A temperatura variou entre 25 °C e 37 °C.
3. Descritores avaliados:
· Quantitativos: altura da planta, comprimento e largura da folha, número de perfilhos, número de folhas por perfilho, espessura do rizoma e produtividade do rizoma por indivíduo.
· Qualitativos: hábito de crescimento, forma e tamanho da lígula, pubescência, forma e cor da folha, cor da pele e da polpa do rizoma, entre outros.
4. Análises estatísticas:
· Análise de componentes principais (ACP);
· Contribuição relativa dos caracteres (método de Singh);
· Análise de agrupamento pelos métodos Tocher e UPGMA;
· Análise conjunta quantitativa + qualitativa pela distância genética de Gower.
· As análises foram realizadas no software Genes.
Resultados e discussão
Componentes principais e contribuição dos descritores
Os quatro primeiros componentes principais explicaram 93,37% da variação total, sendo os descritores mais importantes:
· altura da planta;
· comprimento da folha;
· largura da folha;
· número de perfilhos por planta.
A análise de contribuição relativa indicou que:
· a produtividade do rizoma por indivíduo respondeu por 96,95% da divergência genética;
· a altura da planta contribuiu com 2,76%;
· os demais descritores apresentaram contribuição inferior a 0,2%, mas não foram descartados por influenciarem a formação dos grupos.
Análise de agrupamento – descritores quantitativos
Pelo método de Tocher, os indivíduos foram distribuídos em cinco grupos, com predominância do grupo I, que concentrou 75% dos genótipos, apresentando valores intermediários para os principais caracteres agronômicos.
O indivíduo AP04 formou um grupo isolado, destacando-se pela maior espessura do rizoma.
Análise de agrupamento – descritores qualitativos
Com base nos descritores qualitativos, os indivíduos foram agrupados em 12 grupos, evidenciando maior poder discriminatório dessas características, por serem menos influenciadas pelo ambiente e controladas por poucos genes.
Alguns indivíduos permaneceram isolados por apresentarem características morfológicas exclusivas, como cor da polpa do rizoma e tamanho da lígula.
Análise conjunta pelo algoritmo de Gower
A análise conjunta dos 21 descritores resultou em 11 grupos, demonstrando que o algoritmo de Gower foi eficiente na discriminação da diversidade genética.
O método UPGMA, aplicado à distância de Gower, identificou cinco grupos principais, sendo:
· os indivíduos AF11 e PXT06 os mais dissimilares;
· os indivíduos AF02 e AP01 os mais similares.
Esses resultados reforçam que a análise integrada de dados quantitativos e qualitativos fornece melhor compreensão da variabilidade genética do gengibre.
Conclusão
Os 32 indivíduos de gengibre avaliados apresentaram expressiva variabilidade genética morfológica e agronômica, indicando potencial para:
· programas de melhoramento genético;
· seleção de genótipos superiores;
· conservação de recursos genéticos.
As características que mais contribuíram para a divergência genética foram a produtividade do rizoma por indivíduo e a altura da planta. O indivíduo PXT08 destacou-se como promissor para cultivo comercial, por apresentar porte reduzido e elevado número de perfilhos, associados à maior produtividade.
Referência
OLIVEIRA, Uéliton Alves de et al. Caracterização morfoagronômica e diversidade genética de gengibre usando o algoritmo de Gower. Conjecturas, v. 22, n. 1, p. 1–16, 2022. DOI: 10.53660/CONJ-1391-AG25.![]()
O Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Etnobotânica das plantas medicinais com potencial anti-inflamatório usadas pelos moradores da comunidade Ilha Trambioca, Barcarena, Pará” foi desenvolvido por Suzete Fonseca Conceição, apresentado em 2019, junto à Faculdade de Formação e Desenvolvimento do Campo (FADECAM) da Universidade Federal do Pará (UFPA) – Campus Abaetetuba, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciatura em Educação do Campo – Habilitação em Ciências Naturais, sob orientação do Prof. Dr. Ronaldo Lopes de Souza.
O trabalho teve como objetivo realizar um levantamento etnobotânico das plantas medicinais com potencial anti-inflamatório utilizadas por moradores da Ilha Trambioca, registrando espécies, partes usadas, formas de preparo e indicações terapêuticas, além de confrontar o conhecimento tradicional com dados da literatura científica. O estudo valoriza o saber popular amazônico, destacando sua relevância para a saúde comunitária, a conservação da biodiversidade e o fortalecimento de políticas públicas como o uso de fitoterápicos no SUS.
Introdução
O uso de plantas medicinais constitui uma prática ancestral, amplamente difundida tanto em áreas rurais quanto urbanas, especialmente entre populações com acesso limitado aos serviços de saúde. Na Amazônia, essa prática está intimamente ligada à biodiversidade local e ao conhecimento tradicional transmitido oralmente entre gerações.
A etnobotânica surge como uma área do conhecimento que busca compreender e registrar a relação entre as comunidades humanas e as plantas, incluindo seus usos terapêuticos, manejo e importância cultural. No Brasil, o reconhecimento institucional da fitoterapia ganhou destaque com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e com a implementação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que visa ampliar o acesso seguro a tratamentos baseados na biodiversidade nacional.
Dentro desse contexto, plantas com potencial anti-inflamatório despertam grande interesse, uma vez que os anti-inflamatórios sintéticos amplamente utilizados podem causar efeitos adversos significativos quando usados de forma prolongada.
Objetivos
Objetivo geral
Realizar um levantamento etnobotânico das plantas medicinais com potencial anti-inflamatório utilizadas pelos moradores da Ilha Trambioca, no município de Barcarena, Pará.
Objetivos específicos
Elaborar uma lista das plantas medicinais com potencial anti-inflamatório utilizadas pela comunidade;
Registrar as partes das plantas mais utilizadas, suas indicações terapêuticas e modos de preparo.
Material e métodos
A pesquisa foi conduzida na Ilha Trambioca, localizada no município de Barcarena/PA, caracterizada por clima equatorial quente e acesso fluvial. O estudo ocorreu entre novembro de 2017 e julho de 2018.
Os participantes foram selecionados por meio da técnica não probabilística conhecida como “bola de neve”, priorizando pessoas reconhecidas localmente por seu conhecimento sobre plantas medicinais.
Foram utilizados:
· questionários semiestruturados;
· técnica da lista livre;
· turnês guiadas para validação das espécies citadas;
· coleta, herborização e identificação botânica conforme metodologias padronizadas.
As exsicatas foram depositadas no Herbário do Instituto Federal do Pará – Campus Abaetetuba. Os dados foram analisados de forma qualitativa e quantitativa, com organização em tabelas e gráficos.
Resultados e discussão
Diversidade de espécies
Foram registradas 66 etnoespécies, das quais 51 foram identificadas em nível de espécie, distribuídas em:
· 36 gêneros
· 25 famílias botânicas
As famílias mais representativas foram:
· Lamiaceae (7 espécies);
· Euphorbiaceae (4 espécies);
· Meliaceae, Phyllanthaceae (3 espécies cada);
· Asteraceae, Bignoniaceae, Rutaceae, Poaceae, Verbenaceae e Zingiberaceae (2 espécies cada).
Uso terapêutico
Aproximadamente 15% das espécies citadas foram utilizadas especificamente para o tratamento de processos inflamatórios, como dores, inflamações na garganta, inflamações ginecológicas, ferimentos, inchaços e inflamações musculares.
Entre as espécies mais citadas destacam-se:
· Carapa guianensis (andiroba);
· Zingiber officinale (gengibre);
· Connarus perrottetii (barbatimão);
· Petiveria alliacea (mucuracaá);
· Himatanthus sp. (sucuuba).
Partes utilizadas e formas de preparo
· A folha foi a parte mais utilizada, seguida por cascas, raízes e óleos vegetais.
· As principais formas de preparo foram:
1. chá (infusão ou decocção);
2. uso in natura;
3. banhos medicinais;
4. macerações e aplicações tópicas.
O predomínio do uso das folhas está relacionado à sua disponibilidade ao longo do ano e à elevada concentração de compostos bioativos nessa parte da planta.
Confronto com a literatura
O estudo comparou as espécies citadas com dados científicos disponíveis, verificando que:
· grande parte das plantas indicadas possui comprovação científica de atividade anti-inflamatória;
· algumas espécies ainda carecem de validação farmacológica, representando potencial risco quando utilizadas sem orientação adequada;
· várias plantas citadas constam na lista de espécies de interesse do SUS, reforçando a relevância do conhecimento tradicional.
Conclusão
O trabalho evidenciou que o uso de plantas medicinais com potencial anti-inflamatório permanece fortemente presente na comunidade da Ilha Trambioca, constituindo uma prática cultural, terapêutica e socialmente relevante.
A pesquisa contribui para:
· o registro e preservação do conhecimento tradicional;
· a valorização da biodiversidade amazônica;
· o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao uso racional de plantas medicinais.
Os resultados indicam a necessidade de novos estudos fitoquímicos e farmacológicos para validar a eficácia e a segurança das espécies utilizadas, além de ações educativas que promovam o uso consciente desses recursos naturais.
Referência
CONCEIÇÃO, Suzete Fonseca. Etnobotânica das plantas medicinais com potencial anti-inflamatório usadas pelos moradores da comunidade Ilha Trambioca, Barcarena, Pará. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação do Campo – Ciências Naturais) – Universidade Federal do Pará, Campus Abaetetuba, Abaetetuba, 2019.